quinta-feira, 30 de junho de 2011

AFETIVIDADE E APRENDIZAGEM: A RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO.




AFETIVIDADE E APRENDIZAGEM: A RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO.
Elvira Cristina Martins Tassoni.
Universidade Estadual de Campinas.
Introdução:
Este texto baseia-se na pesquisa de mestrado realizada pela autora1. A partir
de alguns dos resultados obtidos na referida pesquisa, intenciona-se demonstrar como os
fatores afetivos se apresentam na relação professor-aluno e a sua influência no processo de
aprendizagem.
Com uma maior divulgação das idéias de Vygotsky, vem se configurando
uma visão essencialmente social para o processo de aprendizagem. Numa perspectiva
histórico-cultural, o enfoque está nas relações sociais. É através da interação com outros
que a criança incorpora os instrumentos culturais.
Vygotsky (1994), ao destacar a importância das interações sociais, traz a
idéia da mediação e da internalização como aspectos fundamentais para a aprendizagem,
defendendo que a construção do conhecimento ocorre a partir de um intenso processo de
interação entre as pessoas. Portanto, é a partir de sua inserção na cultura que a criança,
através da interação social com as pessoas que a rodeiam, vai se desenvolvendo.
Apropriando-se das práticas culturalmente estabelecidas, ela vai evoluindo das formas
elementares de pensamento para formas mais abstratas, que a ajudarão a conhecer e
controlar a realidade. Nesse sentido, Vygotsky destaca a importância do outro não só no
processo de construção do conhecimento, mas também de constituição do próprio sujeito e
de suas formas de agir.
Segundo o autor, o processo de internalização envolve uma série de
transformações que colocam em relação o social e o individual. Afirma que “todas as
funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e,
depois no nível individual; primeiro entre pessoas (interpsicológica), e, depois, no interior
da criança (intrapsicológica).” (p. 75).
Partindo desse pressuposto, o papel do outro no processo de aprendizagem
torna-se fundamental. Consequentemente, a mediação e a qualidade das interações sociais
ganham destaque.
1Pesquisa realizada sob orientação do Prof. Dr. Sérgio Antônio da Silva Leite – Unicamp.
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Smolka e Góes (1995), ao se referirem à idéia de mediação, representam-na
como uma relação sujeito-sujeito-objeto. “Isto significa dizer que é através de outros que o
sujeito estabelece relações com objetos de conhecimento, ou seja, que a elaboração
cognitiva se funda na relação com o outro” (p. 9).
Pino (1997), ao discorrer sobre os processos cognitivos, defende que o
conhecer humano é uma atividade que pressupõe uma relação que “envolve três elementos,
não apenas dois: o sujeito que conhece, a coisa a conhecer e o elemento mediador que
torna possível o conhecimento” (p. 6). Afirma que
“embora a atividade de conhecer pressuponha a existência no sujeito de
determinadas propriedades que o habilitam a captar as características dos objetos,
há fortes razões para pensar que o ato de conhecer não é obra exclusiva nem do
sujeito, nem do objeto, nem mesmo da sua interação [direta], mas da ação do
elemento mediador, sem o qual não existe nem sujeito nem objeto de
conhecimento” (idem, p. 2).
De maneira semelhante, Klein (1996) defende que o objeto de conhecimento
não existe fora das relações humanas. “De fato, para chegar ao objeto, é necessário que o
sujeito entre em relação com outros sujeitos que estão, pela função social que lhe
atribuem, constituindo esse objeto enquanto tal” (p. 94). Nesse sentido, são as relações
humanas que formam a essência do objeto de conhecimento, pois este só existe a partir de
seu uso social. Portanto, é a partir de um intenso processo de interação com o meio social,
através da mediação feita pelo outro, que se dá a apropriação dos objetos culturais. É
através dessa mediação que o objeto de conhecimento ganha significado e sentido.
Na verdade, são as experiências vivenciadas com outras pessoas é que irão
marcar e conferir aos objetos um sentido afetivo, determinando, dessa forma, a qualidade
do objeto internalizado. Nesse sentido, pode-se supor que, no processo de internalização,
estão envolvidos não só os aspectos cognitivos, mas também os afetivos.
Assim, abre-se um espaço para investigações científicas abordando a
influência dos aspectos afetivos no processo de aprendizagem.
A relação que caracteriza o ensinar e o aprender transcorre a partir de
vínculos entre as pessoas e inicia-se no âmbito familiar. A base desta relação vincular é
afetiva, pois é através de uma forma de comunicação emocional que o bebê mobiliza o
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adulto, garantindo assim os cuidados que necessita. Portanto, é o vínculo afetivo
estabelecido entre o adulto e a criança que sustenta a etapa inicial do processo de
aprendizagem. Seu status é fundamental nos primeiros meses de vida, determinando a
sobrevivência (Wallon, 1978). Da mesma forma, é a partir da relação com o outro, através
do vínculo afetivo que, nos anos iniciais, a criança vai tendo acesso ao mundo simbólico e,
assim, conquistando avanços significativos no âmbito cognitivo. Nesse sentido, para a
criança, torna-se importante e fundamental o papel do vínculo afetivo, que inicialmente
apresenta-se na relação pai-mãe2-filho e, muitas vezes, irmão (s). No decorrer do
desenvolvimento, os vínculos afetivos vão ampliando-se e a figura do professor surge com
grande importância na relação de ensino e aprendizagem, na época escolar. “Para
aprender, necessitam-se dois personagens (ensinante e aprendente3) e um vínculo que se
estabelece entre ambos. (...) Não aprendemos de qualquer um, aprendemos daquele a quem
outorgamos confiança e direito de ensinar” (Fernández, 1991, p. 47 e 52).
Toda aprendizagem está impregnada de afetividade, já que ocorre a partir
das interações sociais, num processo vincular. Pensando, especificamente, na aprendizagem
escolar, a trama que se tece entre alunos, professores, conteúdo escolar, livros, escrita, etc.
não acontece puramente no campo cognitivo. Existe uma base afetiva permeando essas
relações.
As experiências vividas em sala de aula ocorrem, inicialmente, entre os
indivíduos envolvidos, no plano externo (interpessoal). Através da mediação, elas vão se
internalizando (intrapessoal), ganham autonomia e passam a fazer parte da história
individual. Essas experiências também são afetivas. Os indivíduos internalizam as
experiências afetivas com relação a um objeto específico.
A afetividade:
Existe uma grande divergência quanto à conceituação dos fenômenos
afetivos. Na literatura encontra-se, eventualmente, a utilização dos termos afeto, emoção e
sentimento, aparentemente como sinônimos. Entretanto, na maioria das vezes, o termo
emoção encontra-se relacionado ao componente biológico do comportamento humano,
2 Refere-se aqui aos pais não necessariamente biológicos, mas aos adultos responsáveis pelos cuidados e
educação da criança.
3 Termos mantidos do original em espanhol, significando, respectivamente, quem ensina e quem aprende.
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referindo-se a uma agitação, uma reação de ordem física. Já a afetividade é utilizada com
uma significação mais ampla, referindo-se às vivências dos indivíduos e às formas de
expressão mais complexas e essencialmente humanas.
Engelmann (1978) faz uma profunda revisão terminológica quanto às
variações semânticas, ao longo do tempo, das palavras: emoções, sentimentos, estados de
ânimo, paixão, afeto e estados afetivos, em diversos idiomas (francês, inglês, alemão,
italiano e português). Esperava conseguir clarear e precisar as peculiaridades de significado
de cada termo que, às vezes, são usados como sinônimos. Tinha a intenção de corrigir o
caráter vago e a inadequação de uso, em muitos casos.
Concluiu que existe uma variação conceitual muito grande, dependendo do
autor e do idioma a ser considerado.
Apesar das dificuldades de conceituação que vêm acompanhando,
historicamente os fenômenos afetivos, Pino (mimeo) tem destacado com clareza que tais
fenômenos referem-se às experiências subjetivas, que revelam a forma como cada sujeito
“é afetado pelos acontecimentos da vida ou, melhor, pelo sentido que tais acontecimentos
têm para ele” (p. 128). Portanto,
“os fenômenos afetivos representam a maneira como os acontecimentos repercutem
na natureza sensível do ser humano, produzindo nele um elenco de reações
matizadas que definem seu modo de ser-no-mundo. Dentre esses acontecimentos, as
atitudes e as reações dos seus semelhantes a seu respeito são, sem sombra de
dúvida, os mais importantes, imprimindo às relações humanas um tom de
dramaticidade. Assim sendo, parece mais adequado entender o afetivo como uma
qualidade das relações humanas e das experiências que elas evocam (...). São as
relações sociais, com efeito, as que marcam a vida humana, conferindo ao conjunto
da realidade que forma seu contexto (coisas, lugares, situações, etc.) um sentido
afetivo” (idem, p. 130-131).
Embora os fenômenos afetivos sejam de natureza subjetiva, isso não os torna
independentes da ação do meio sociocultural, pois relacionam-se com a qualidade das
interações entre os sujeitos, enquanto experiências vivenciadas. Dessa maneira, pode-se
supor que tais experiências vão marcar e conferir aos objetos culturais um sentido afetivo.
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Wallon, estudioso francês com formação em medicina e filosofia (na época
não havia curso autônomo de psicologia e a formação do psicólogo vinculava-se ao curso
de filosofia), dedicou grande parte de sua vida ao estudo das emoções e da afetividade.
Identificou as primeiras manifestações afetivas do ser humano, suas características e a
grande complexidade que sofrem no decorrer do desenvolvimento, assim como suas
múltiplas relações com outras atividades psíquicas. Afirma que a afetividade desempenha
um papel fundamental na constituição e funcionamento da inteligência, determinando os
interesses e necessidades individuais.
Atribui às emoções um papel de primeira grandeza na formação da vida
psíquica, funcionando como uma amálgama entre o social e o orgânico. As relações da
criança com o mundo exterior são, desde o início, relações de sociabilidade, visto que, ao
nascer, não tem
“meios de ação sobre as coisas circundantes, razão porque a satisfação das suas
necessidades e desejos tem de ser realizada por intermédio das pessoas adultas que
a rodeiam. Por isso, os primeiros sistemas de reação que se organizam sob a
influência do ambiente, as emoções, tendem a realizar, por meio de manifestações
consoantes e contagiosas, uma fusão de sensibilidade entre o indivíduo e o seu
entourage” (Wallon, 1971, p. 262).
Baseando-se em fundamentos darwinistas, encontrou argumentos que
enfatizam a origem do homem como um ser emocional. Analisando aspectos como prole
reduzida em comparação com outros mamíferos e o prolongado período de dependência
entre o bebê e seus pais, destaca a importância da proximidade do outro para o
desenvolvimento humano. Nesse sentido, defende que a emoção é o primeiro e mais forte
vínculo entre os indivíduos.
Wallon (1978) entende que a primeira relação do ser humano ao nascer é
com o ambiente social, ou seja, com as pessoas ao seu redor. As manifestações iniciais do
bebê assumem um caráter de comunicação entre ele e o outro, sendo vistas como o meio de
sobrevivência típico da espécie humana. “Os únicos atos úteis que a criança pode fazer,
consistem no fato de, pelos seus gritos, pelas suas atitudes, pelas suas gesticulações,
chamar a mãe em seu auxílio.(...) Portanto, os primeiros gestos (...) não são gestos que lhe
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permitirão apropriar-se dos objetos do mundo exterior ou evitá-los, são gestos dirigidos às
pessoas, de expressão” (p. 201).
Wallon estabelece uma distinção entre emoção e afetividade (1968).
Segundo o autor as emoções são manifestações de estados subjetivos, mas com
componentes orgânicos. Contrações musculares ou viscerais, por exemplo, são sentidas e
comunicadas através do choro, significando fome ou algum desconforto na posição em que
se encontra o bebê. Ao defender o caráter biológico das emoções, destaca que estas
originam-se na função tônica. Toda alteração emocional provoca flutuações de tônus
muscular, tanto de vísceras como da musculatura superficial e, dependendo da natureza da
emoção, provoca um tipo de alteração muscular. Wallon “identifica emoções de natureza
hipotônica, isto é, redutoras do tônus, tais como o susto e a depressão. (...) Outras emoções
são hipertônicas, geradoras de tônus, tais como a cólera e a ansiedade, capazes de tornar
pétrea a musculatura periférica” (Dantas, 1992, p. 87).
A afetividade, por sua vez, tem uma concepção mais ampla, envolvendo uma
gama maior de manifestações, englobando sentimentos (origem psicológica) e emoções
(origem biológica). A afetividade corresponde a um período mais tardio na evolução da
criança, quando surgem os elementos simbólicos. Segundo Wallon, é com o aparecimento
destes que ocorre a transformação das emoções em sentimentos. A possibilidade de
representação, que consequentemente implica na transferência para o plano mental, confere
aos sentimentos uma certa durabilidade e moderação.
Considerando que o processo de aprendizagem ocorre em decorrência de
interações sucessivas entre as pessoas, a partir de uma relação vincular, é, portanto, através
do outro que o indivíduo adquire novas formas de pensar e agir e, dessa forma apropria-se
(ou constrói) novos conhecimentos. Considerando, igualmente, que a qualidade dessas
relações sociais influem na relação do indivíduo com os objetos, lugares e situações,
apresenta-se, na seqüência, como se desenvolveu a pesquisa que teve por objetivo –
analisar as interações em sala de aula entre professores e alunos, buscando identificar
os aspectos afetivos presentes que influenciam o processo de aprendizagem,
especificamente da linguagem escrita.
Na verdade, os resultados obtidos na pesquisa podem ser ampliados
focalizando o processo de aprendizagem de uma maneira geral.
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Baseando-se numa perspectiva teórica fundamentalmente social, a partir de
Vygotsky e Wallon, defende-se que a afetividade que se manifesta na relação professoraluno
constitui-se elemento inseparável do processo de construção do conhecimento. Além
disso, a qualidade da interação pedagógica vai conferir um sentido afetivo para o objeto de
conhecimento, a partir das experiências vividas.
A pesquisa:
Baseou-se em observações realizadas em três classes, com crianças de seis
anos em média. As observações foram registradas em vídeo e focalizaram as interações
entre o professor e o aluno durante as atividades que envolviam a linguagem escrita.
Ao realizar as transcrições das imagens vídeo-gravadas foi possível
identificar alguns aspectos afetivos que influenciavam a relação do aluno com a atividade,
influenciando, de igual maneira, a aprendizagem.
Segundo Pino (mimeo) “os integrantes de um mesmo grupo cultural têm
referenciais comuns para interpretar as experiências afetivas dos outros membros do
grupo, o que não impede, porém, que tais experiências sejam pessoais e diferenciadas
(idem, p. 128). Coletar posturas, gestos, expressões faciais torna possível tal trabalho de
interpretação com relação aos sentimentos envolvidos numa determinada situação, pois se
utiliza de significados compartilhados culturalmente.
Além de se trabalhar com as imagens vídeo-gravadas num processo de
interpretação, considerou-se de fundamental importância, ouvir o que os alunos tinham a
dizer à respeito das experiências vividas em sala de aula.
Foi escolhida a técnica da autoscopia : “confrontação da imagem de si na
tela” (Linard apud Sadalla, 1997, p. 33). “Consiste em realizar uma vídeo-gravação do
sujeito, individualmente ou em grupo e, posteriormente, submetê-lo à observação do
conteúdo filmado para que exprima comentários sobre ele ” (Sadalla, 1997, p. 33).
Durante as sessões de autoscopia cada aluno, individualmente, assistia às
imagens vídeo-gravadas onde ele aparecia numa situação de interação com o professor,
durante uma atividade envolvendo a linguagem escrita. Inicialmente, o aluno realizava
comentários espontâneos a respeito do que via e depois, explorava-se, através de perguntas,
situações específicas da interação professor-aluno que se apresentava.
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As sessões de autoscopia transcorreram num intervalo de tempo que variou
de vinte e oito a quarenta e cinco dias após a filmagem de cada atividade. Os dados
demonstraram que com um intervalo de tempo maior, os alunos expressavam com
freqüência seus sentimentos em relação à atividade e com relação a atuação do professor,
demonstrando claramente os aspectos afetivos que permeiam a relação e, a sua influência
no processo de aprendizagem. O fato de terem que recordar a experiência vivida,
proporcionava um volume maior de comentários permeados de sentimentos.
Foram filmadas sete atividades de onde se extraíram doze episódios de
interação. Um episódio de interação referiu-se aos momentos de interação entre o professor
e o aluno, que foram identificados a partir de algum tipo de aproximação, verbal ou nãoverbal,
ocorrida entre ambos, desde que esta tivesse uma função para a atividade do
momento. Cada episódio de interação envolveu um aluno e um professor. Portanto, foram
sujeitos da pesquisa doze alunos e quatro professoras – três delas responsáveis por cada
uma das três classes filmadas e uma professora auxiliar que dava suporte ao trabalho
pedagógico dessas classes.
Uma outra etapa da coleta de dados consistiu ainda, de entrevista com cada
uma das quatro professoras. Tais entrevistas foram gravadas em áudio e basearam-se em
questões a respeito dos aspectos que mais mereciam a atenção de cada uma delas, no
processo de apropriação da linguagem escrita e, concretamente, como viam a manifestação
da dimensão afetiva nesse processo.
A análise dos dados consistiu, numa primeira etapa, em articular a coleta
realizada em sala de aula, através das vídeo-gravações e a coleta realizada com os alunos
nas sessões de autoscopia.
Nesta fase foi possível observar, através do comportamento das professoras,
que a afetividade manifestava-se por meio de comportamentos posturais e por meio de
comportamentos verbais. Da mesma forma, os alunos que participaram das sessões de
autoscopia, em seus comentários identificavam, nas formas de interação utilizadas pelas
professoras, aspectos afetivos que se manifestavam através desses dois veículos. Nesse
sentido, trabalhou-se com duas grandes categorias: Posturas e Conteúdos Verbais.
A segunda etapa do processo de análise consistiu em trabalhar com os dados
coletados durante as entrevistas com as professoras. Tais dados foram utilizados para
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confirmar a presença da afetividade nas relações em sala de aula, além de avaliar o nível de
consciência que existia, por parte das professoras, da interdependência dos aspectos
afetivos e cognitivos.
Alguns resultados:
As duas categorias de análise identificadas na pesquisa – Postura e
Conteúdo Verbal – constituíram-se em fortes veículos de expressão da afetividade. Nas
condições observadas, foi através de ambas categorias que os aspectos afetivos
manifestaram-se na mediação professor-aluno.
A partir dos dados coletados com relação às posturas das professoras, o que
mais se observou foi a freqüência com que mantinham-se próximas de seus alunos e a
forma como os acolhiam fisicamente em suas necessidades. Tais posturas estabeleciam
grande cumplicidade no processo de aprendizagem e foram extremamente valorizadas por
eles, através de seus comentários. Segue-se alguns exemplos:
Sujeito 2: “__ Aqui na escola, a (nome da professora) ensina. Ela vem perto e ajuda. Eu
nem sei as coisas e eu falo – ah, não sei fazê e desisto. Depois eu falo – ah, eu sei fazê.
Quando ela tá perto eu não desisto.”
Sujeito 3: “__ Gosto quando a (nome da professora) fica perto porque ela é legal. Ela
ajuda, ela conversa do meu trabalho. Isso ajuda, porque ela dá umas idéias pra gente.”
Sujeito 4: “__ Quando ela fica perto ajuda sim. Eu gosto. Eu faço o trabalho melhor.”
Sujeito 5: “__ Ela fica perto e vai falando e ajudando. Quando ela tá assim, ela tá me
ajudando.”
Sujeito 10: “__ Quando a gente tá nervosa pra fazer o trabalho ela não fica brava, senão
irrita mais ainda. Quando tá nervosa pra fazer o trabalho, ela vem perto e fala – A você
errou aqui. Aí ela fala onde tá a outra palavra que é o certo. Aí não fico mais nervosa.”
Sujeito 12: “__ Gosto quando a (nome da professora) fica perto, porque ela me ajuda.
Acho que eu penso muito mais. Porque ela perto me ajuda mais, do que quando eu penso
sozinho.”
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Os alunos apontaram a proximidade física como uma forma de ajudar, de
transmitir segurança e tranqüilidade diante das atividades. Reconheceram que ao se
aproximar, a professora dava sugestões, idéias que eram aproveitadas por eles, fazia
correções.
A proximidade entre as professoras e os alunos proporcionou inúmeras
formas de interação. Possibilitou diálogos intensos criando infinitas maneiras de auxiliar os
alunos, caracterizou uma forma de demonstração de atenção bastante eficiente e facilmente
notada por eles. A proximidade das professoras foi extremamente valorizada pelos alunos e
constituiu-se uma forma de interação extremamente afetiva, que amenizava a ansiedade,
transmitia confiança e encorajava o aluno a investir no processo de execução da atividade,
interferindo, significativamente no processo de apropriação da linguagem escrita. Segundo
Dantas (1993), “é impossível alimentar afetivamente `a distância”(p. 75). A troca de
sentimentos foi possível pela proximidade entre professoras e alunos.
Da mesma forma, as professoras expressaram que se utilizam do recurso da
proximidade para aliviar a ansiedade dos alunos, para amenizar o desgaste dos mesmos
durante a realização da atividade e auxiliá-los com maior eficiência.
Professora A: “__ Até, quando eu falo da importância de estar perto, estar próxima,
acompanhando mais passo a passo, tem a intenção também de amenizar esse desgaste.”
Professora B: “__ No momento em que você dá a atividade e pede pra criança escrever e
você percebe que ela está com dificuldade, você senta junto e ajuda a criança.”
O Contato Físico, outro aspecto relacionado ao comportamento postural,
Também apareceu como uma forma de interação bastante afetiva, ocorrendo em vários
momentos durante a realização da atividade. Surgiu enquanto os alunos escreviam, ou liam
para a professora, quando aproximavam-se dela para perguntar alguma coisa, ou ainda
foram observados acompanhando um elogio em virtude do término da atividade. Foi uma
forma de interação bastante comentada pelos alunos.
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Sujeito 2: “__ A (nome da professora) sempre faz carinho. Eu gosto. Ela faz assim e assim
(imita os carinhos da professora – põe a mão na barriga e mão no ombro), em quase todos
os amigos. (...) É bom. Tudo que agrada é bom.”
Sujeito 6: “__ Ela faz carinho, às vezes. Ela põe a mão na cabeça da gente na hora que a
gente tá escrevendo. (...)”
Sujeito 10: “__ Quando a gente fica muito nervosa, assim, pra achar, então ela vem perto
e às vezes faz assim e ajuda a passar o nervoso. (Passa a mão na cabeça)”
Os dados revelaram que, nessa idade, os gestos posturais expressam grande
parte da afetividade, embora a linguagem oral predomine nas interações em sala de aula e
tenham desempenhado um papel fundamental nas relações observadas. Na verdade, as
posturas corporais complementaram e deram maior significado ao que era dito oralmente.
Quanto aos conteúdos verbais, observou-se que os que tinham por objetivo
incentivar e apoiar os alunos durante as atividades foram os identificados com maior
freqüência. Ambos referem-se às interações verbais que tinham por objetivo encorajar,
envolver e ajudar o aluno, no sentido de fornecer elementos que possibilitassem uma
constante elaboração por parte dele. Nesse sentido, infere-se que existiu, por parte das
professoras, maior preocupação com o processo de execução da atividade e não apenas com
o resultado final.
Os alunos evidenciaram em seus comentários tanto a forma de se falar, como
o conteúdo propriamente dito, demonstrando a relação entre o prazer em aprender, o
interesse em fazer e a atuação do outro.
Sujeito 1: “__ Eu tô gostando de escrever mais agora porque a (nome da professora) tá
ensinando. Antes eu gostava, mas ninguém me ensinava.”
Sujeito 2: “__ Ela faz coisa na lousa, escreve, ela desenha... Eu olho tudo que ela escreve,
desenha e tô ficando craque. Ela é muito craque! Olha eu copiando da lousa! (...) Ela vai
falando e escrevendo e eu olho bem e vou fazendo. Ela me ajudou a ficar melhor.”
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Os comentários dos alunos evidenciaram que a qualidade da interação
professor-aluno traz um sentido afetivo para o objeto de conhecimento e influencia a
aprendizagem do aluno.
Os comentários dos alunos a respeito dos conteúdos verbais emitidos pelas
professoras, apontaram, muitas vezes, as modulações da voz indicando o caráter afetivo que
marca a relação.
Sujeito 5: “__ Quando ela fala com a gente ela fala de um jeito bom.
Sujeito 10: “__ Ela tem paciência. É assim – tem que falá calminha e não assim: Você
errou aqui! Não é brava, não. Alba aqui você escreveu errado, aqui tem o F no meio, por
exemplo. Aí eu errei uma coisa Aí ela fala assim, tá aqui A-NA-LA-ÍS. Ela fala baixinho
pra não atrapalhar os outros também.”
As professoras, por sua vez, demonstraram a preocupação de encorajar os
alunos a investirem no próprio aprendizado confiando na capacidade de cada um e
fortalecendo a auto-estima.
Professora C: “__ Eu acho importante que eles sintam (...) que eu sou cúmplice, vou estar
ajudando, sou amiga, e não aquela professora que vai estar julgando o certo e o errado –
você fez certo, você fez errado, ou vocês são forte ou fraco. Acho que isso não existe. Acho
que todo mundo tem que estar sentindo que eu estou aqui valorizando o desenvolvimento
individualmente e respeitando cada um.”
Professora D: “__ Eu acho que ele precisa se sentir seguro, se sentir tranqüilo, pra se
colocar. Não pode ter receio de apostar, de investir nessa escrita, de acreditar nas
hipóteses dele. Por isso, é importante ter uma pessoa que o incentive. Claro, que não é
aquele incentivo de falar que está tudo lindo, mas que o coloque em conflito também. Se a
gente estiver intermediando com calma, transmitindo segurança, ajudando ele elaborar
essa construção, seu ritmo vai ser diferente.”
As professoras demonstraram que o fato de terem consciência do
entrelaçamento dos aspectos afetivos e cognitivos, tinham maior possibilidade de controlar
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e reverter sentimentos negativos, como também explorar de maneira positiva o desejo de
aprender e o interesse em fazer.
Considerações finais:
Quando se assume que o processo de aprendizagem é social, o foco deslocase
para as interações e os procedimentos de ensino tornam-se fundamentais. O que se diz,
como se diz, em que momento e por quê; da mesma forma que, o que se faz, como se faz,
em que momento e por quê, afetam profundamente as relações professor-aluno,
influenciando diretamente o processo de ensino-aprendizagem. O comportamento do
professor, em sala de aula, expressa suas intenções, crenças, seus valores, sentimentos,
desejos que afetam cada aluno individualmente. Através dos comentários desses alunos, foi
possível obter uma amostra de como vêem, sentem e compreendem alguns aspectos do
comportamento dessas professoras e a influência destes na aprendizagem.
A partir dos dados, pôde-se concluir que existem transformações importantes
nas formas de expressão e mudanças significativas nos níveis de exigência afetiva. As
formas de expressão que utilizam exclusivamente o corpo, como o toque, os olhares e as
modulações da voz, vão ganhando maior complexidade. “Com o advento da função
simbólica que garante formas de preservação dos objetos ausentes, a afetividade se
enriquece com novos canais de expressão. Não mais restrita à trocas dos corpos, ela agora
pode ser nutrida através de todas as possibilidades de expressão que servem também à
atividade cognitiva.” (Dantas, 1993, p. 75). Nesse sentido, é possível concluir que a
afetividade não se limita apenas às manifestações de carinho físico e de elogios superficiais.
Como salienta Dantas (1993), conforme a criança vai se desenvolvendo, as
trocas afetivas vão ganhando complexidade. “As manifestações epidérmicas da
“afetividade da lambida4” se fazem substituir por outras, de natureza cognitiva, tais como
respeito e reciprocidade”(p. 75). Adequar a tarefa às possibilidades do aluno, fornecer
meios para que realize a atividade confiando em sua capacidade, demonstrar atenção às
suas dificuldades e problemas, são maneiras bastante refinadas de comunicação afetiva.
Dantas (1992, 1993) refere-se a essas formas de interação como “cognitivização” da
afetividade.
4 Termo usado para referir-se a manifestação da afetividade, exclusivamente, através do contato físico.
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Conforme a criança avança em idade, torna-se necessário “ultrapassar os
limites do afeto epidérmico, exercendo uma ação mais cognitiva no nível, por exemplo, da
linguagem.” (Almeida, 1999, p. 108). Mesmo mantendo-se o contato corporal como forma
de carinho, falar da capacidade do aluno, elogiar o seu trabalho, reconhecer seu esforço,
constituem-se formas cognitivas de vinculação afetiva.
Os dados apresentados parecem confirmar que existiu um refinamento nas
trocas afetivas. Foi comum encontrar, nos depoimentos tanto de alunos como nos das
professoras, referências ao respeito, à colaboração, à valorização de cada um e o desejo de
compreender o outro. Assim, quanto melhores forem as condições de se cultivarem
sentimentos como estes, mais consistentes e profundos serão os relacionamentos,
promovendo uma aprendizagem significativa.
É certo que as relações entre as pessoas não são sempre permeadas pela
tranqüilidade e pela suavidade. Os fenômenos afetivos referem-se igualmente aos estados
de raiva, medo, ansiedade, tristeza. Essas emoções e sentimentos estão presentes nas
interações sociais. No entanto, deve-se ressaltar que na presente pesquisa, tais
manifestações não foram observadas, pois os dados coletados restringiram-se apenas às
situações específicas de aprendizagem, envolvendo atividades acadêmicas de produção de
escrita. Além disso, as professoras demonstraram, através das entrevistas, uma grande
preocupação em trabalhar com sentimentos de ansiedade e insegurança, que influenciam
negativamente o processo de aprendizagem. Foi possível inferir, a partir das entrevistas,
que há discussões entre as professoras a fim de se planejar ações concretas para amenizar
os efeitos desarticuladores que tais sentimentos provocam.
Wallon e vários autores estudiosos de sua psicogênese já afirmaram que é
possível atuar sobre o cognitivo via afetivo e vice-versa. Nesse sentido, torna-se evidente
que condições afetivas favoráveis facilitam a aprendizagem. Os dados apresentaram
momentos onde se destacou a preocupação das professoras em transmitir tranqüilidade aos
alunos, favorecendo o processo de aprendizagem.
Wallon (1971) defende, em sua teoria, o caráter contagioso das emoções. “A
emoção necessita suscitar reações similares ou recíprocas em outrem e, (...) possui sobre o
outro um grande poder de contágio” (p. 91). Conclui-se, portanto, que o professor contagia
e é contagiado pelos alunos.
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Os dados demonstraram que as professoras atuavam com o objetivo de
combater o excesso de ansiedade que surgia durante as atividades, buscando contagiar os
alunos com sentimentos que tranqüilizavam, encorajavam e fortaleciam-nos na execução
das mesmas.
Medo, angústia, ansiedade e frustração são sentimentos que desgastam o
aluno. A serenidade e tranqüilidade das professoras auxiliaram na redução ou até a
eliminação desses sentimentos desagregadores, permitindo o que Dantas (1994) denomina
de “destravamento” da atividade cognitiva.
Os dados apresentados revelaram professoras atuantes, observadoras,
intérpretes perspicazes das intenções, desejos e dizeres dos seus alunos. Mostraram-se
preocupadas em identificar os entraves que surgiam tanto na relação entre elas e os alunos,
como entre eles e a atividade, entre eles e a escrita e também entre si mesmos. Deram
demonstrações, através de suas posturas e seus dizeres, que buscam, constantemente,
compreender os meandros que surgem no processo de apropriação do conhecimento, aqui
especificamente relacionado com a escrita. Muitas vezes, observando as posturas, os
olhares, a qualidade dos gestos, a entonação na fala e até a respiração dos alunos, é possível
buscar interpretações para estados internos profundos “dos quais depende o bom ou mau
funcionamento dos processos cognitivos.” (Dantas, 1994, p. 46).
Em muitos momentos, nos comentários dos alunos, destacaram-se o desejo,
o prazer em realizar a atividade e de vencer os desafios. As formas de atuação das
professoras, assim como o tipo de atividade que planejavam, foram os indicadores deste
desejo e prazer manifestos por eles. Demonstrou-se uma intenção, expressa por parte das
professoras, de planejar atividades que despertassem o interesse dos alunos.
Outro ponto observado nos dados foi a importância das diversas formas de
interação entre as professoras e os alunos, para a construção da auto-estima e da
autoconfiança, influindo diretamente no processo de aprendizagem. Freqüentemente
detectaram-se, nas interações, sentimentos de acolhimento, simpatia, respeito e apreciação.
Da mesma forma, evidenciaram-se sentimentos de compreensão, aceitação e valorização do
outro. Nesse sentido, pôde-se concluir que as experiências vividas em sala de aula
permitiram trocas afetivas positivas que, não só marcaram positivamente o objeto de
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conhecimento, como também favoreceram a autonomia e fortaleceram a confiança dos
alunos em suas capacidades e decisões.
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